Amizade / Friendship (Jéssica)

Amizade

por Jéssica de Sá Valdinucci, mãe de Aila

Nós sempre soubemos que ser mãe iria mudar as nossas rotinas, nossos pensamentos e até as nossas preferências e amizades. Mas no nosso caso, algo realmente mudou, e drasticamente.

Ter filhos especiais, a correria entre estimulações, cuidando da casa, e até cuidando de nós mesmas, nós mães raramente temos tempo para uma conversa com os nossos velhos amigos. E quando temos, é como que nos sentimos peixes fora d’água. Quando esses amigos não têm filhos, eles viram mais distantes da nossa realidade. Não é que não gostamos mais, só que tem momentos que não nos identificamos mais com eles. Quando falamos com outras mães (e o assunto é sempre os nossos filhos), acabamos nos frustrando, no fundo. Sempre ouvimos das etapas de evolução dos seus filhos, suas traquinagens, as festas de criança, e o quanto eles correram e brincaram lá. E por mais que a gente tente mostrar o pequeno mais importante progresso dos nossos pequenos, a vibração do outro lado nunca é a mesma. Ver essas etapas de desenvolvimento e passando por frustrações, fiquei triste, até mais sozinha com a minha filha.

Mas quando cheguei no fundo do poço da solidão, aterrorizada com todas as mudanças na minha vida, dessa nova fase “mãe”, mãe especial, finalmente resolvi ir participar num grupo de mães especiais que estava se reunindo no chamado “Abraço a Microcefalia”. No início eu era um pouco quieta, mas observando o ambiente, pude sentir algo diferente. Sim, talvez esse era o meu lugar.

Depois de algumas semanas indo às reuniões, comecei a perceber e me identificar com algumas das mães. Quando finalmente tive a oportunidade de falar com algumas delas, foi muito bom. As nossas conversas foram uma mistura de felicidade, medo, coragem, e superação–até comédia! Entre as muitas amizades que eu fiz, algumas se destacaram na minha vida, e na vida da minha filha. Mara Rúbia, mãe de Benjamin, e Marione Barros, mãe da “Princesa” Safira.

Aila e Benjamin, brincando juntos. Fotos pela autora.

Por incrível que pareça, as diferenças de personalidade entre as três foram gritantes. Mas algumas coisas nos fortaleceram e nos uniram: a empatia, a lealdade, a confiança, a solidariedade e a coragem. Estávamos juntas em momentos de alegria, em momentos de tristeza, nas dificuldades… Até durante os internamentos dos nossos filhos, às vezes a gente estava internada junto. E tiveram os nossos tempos bons: quando estávamos juntas, os risos eram altos e os nossos problemas deixaram de existir. Os nossos filhos formaram uma amizade linda e vibrante.

Eu vi esse ciclo de amizade se repetir com muitas outras mães, e isso me despertou em mim uma intensa felicidade. Porque eu sabia o quanto difícil era a solidão em que me encontrava antes. E sim, muitas vezes, nesse mesmo grupo de mães, tinham diferenças de opinião e até discussões. Mas quando todo mundo se junta, a alegria prevalece, o apoio e os abraços se tornam mais fortes e verdadeiros, e o amor transborda. Só há um significado para isso: família.

E sim, esse é o meu lugar.

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Comemorando na Abraço a Microcefalia.

 


Friendship

by Jéssica de Sá Valdinucci, mother of Aila

We always knew that becoming mothers would change our routines, our thoughts and even our preferences and friendships. But in our case, something really did change, and drastically.

Having special needs children (filhos especiais), the running around between therapy appointments (estimulações), taking care of the home, and even taking care of oneself, we mothers rarely have time for a conversation with our old friends. And when we do, it’s like we feel like fish out of water. When those friends don’t have children, they become more distant from our reality. It’s not that we don’t like them anymore, just that there are times when we no longer identify with them. When we talk with other moms (and the topic is always our children), we end up getting frustrated, deep down. We always hear about the stages of normal development (evolução) of their children, their romping around (traquinagens), the kid’s parties they go to, and how much they ran around and played there. And as much as we try to show our little ones’ small but important progress, the vibration on the other end is never the same. Seeing those stages of development and going through frustrations [in relation to our own children’s development], I felt sad, even more alone with my daughter.

But when I hit the rock bottom of loneliness, terrified about all of the changes in my life, of this new “mom” phase, special mom (mãe especial), I finally decided to go participate in a group of special moms that was meeting at the so-called “Abraço a Microcefalia” (I Embrace Microcephaly). In the beginning I was a little quiet, but observing the environment, I was able to feel something different. Yes, maybe this was the place for me.

After a few weeks going to the meetings, I started to notice and identify with some of the mothers. When I finally had the opportunity to talk to some of them, it was very good. Our conversations were a mixture of happiness, fear, courage, and overcoming—even comedy! Among the many friendships I forged, some of them stood out in my life, and in my daughter’s life. Mara Rúbia, Benjamin’s mother, and Marione Barros, mother of “Princess” Safira.

Aila and Benjamin, hanging out. Photos by the author.

As incredible as it may seem, the personality differences between the three of us were pronounced (gritante). But some things made us strong and brought us together: empathy, loyalty, trust, solidarity, and courage. We were together in times of joy, in times of sadness, through the difficulties… Even during our children’s hospitalizations, we were sometimes hospitalized together. And there were our good times: when we were together, the laughter was loud and our problems ceased to exist. Our children forged a beautiful and vibrant friendship.

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Friends, plus Benjamin. Photo courtesy of the author.

I saw this cycle of friendship repeat itself with many other moms, and this awoke an intense joy in me. Because I knew how hard the loneliness was that I found myself in before. And yes, many times, in this same group of mothers, there were differences of opinion and even arguments. But when everyone gets together, joy prevails, the support and the hugs become stronger and truer, and love overflows. There is only one meaning for this: family.

And yes, this is the place for me.

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A celebration at Abraço a Microcefalia.

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